Os Que Dizem “Senhor, Senhor!”

Do Evangelho Segundo o Espiritismo.

6 – Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse entrará no Reino dos Céus. Muitos me dirão, naquele dia: Senhor, Senhor, não é assim que profetizamos em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome obramos muitos prodígios? E eu então lhes direi, em voz bem inteligível: Pois eu nunca vos conheci; apartai-vos de mim, os que obrais a iniqüidade. (Mateus, VII: 21-23).

7 – Todo aquele, pois,que ouve estas minhas palavras, e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou a sua casa sobre a rocha. E veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. E todo o que ouve estas minhas palavras, e não as observa, será comparado ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua ruína. (Mateus, VII: 24-27 e semelhante em Lucas, VI: 46-49).

8 – Aquele, pois, que quebrar um destes mínimos mandamentos, e que assim ensinar aos homens, será chamado mui pequeno no Reino dos Céus; mas o que os guardar, e ensinar a guardá-los, esse será reputado grande no Reino dos Céus. (Mateus, V: 19).

9 – Todos os que confessam a missão de Jesus, dizem: Senhor, Senhor! Mas de que vale chamá-lo Mestre ou Senhor, quando não se seguem os seus preceitos? São cristãos esses que o honram através de atos exteriores de devoção, e ao mesmo tempo sacrificam no altar do egoísmo, do orgulho, da cupidez e de todas as suas paixões? São seus discípulos esses que passam os dias a rezar, e não se tornam melhores, nem mais caridosos, nem mais indulgentes para com os seus semelhantes? Não, porque, à semelhança dos fariseus, têm a prece nos lábios e não no coração. Servindo-se apenas das formas, podem impor-se aos homens, mas não a Deus. É em vão que dirão a Jesus: “Senhor, nós profetizamos, ou seja, ensinamos em vosso nome; expulsamos os demônios em vosso nome; comemos e bebemos convosco!” Ele lhes responderá: “Não sei quem sois. Retirai-vos de mim, vós que cometeis iniqüidade, que desmentis as vossas palavras pelas ações, que caluniais o próximo, que espoliais as viúvas e cometeis adultério! Retirai-vos de mim, vós, cujo coração destila ódio e fel, vós que derramais o sangue de vossos irmãos em meu nome, que fazeis correrem as lágrimas em vez de secá-las! Para vós, haverá choro e ranger de dentes, pois o Reino de Deus é para os que são mansos, humildes e caridosos. Não espereis dobrar a justiça do Senhor pela multiplicidade de vossas palavras e de vossas genuflexões. A única via que está aberta, para alcançardes a graça em sua presença, é a da prática sincera da lei do amor e da caridade.”

As palavras de Jesus são eternas, porque são as verdades. Não são somente as salvaguardas da vida celeste, mas também o penhor da paz, da tranqüilidade e da estabilidade do homem entre as coisas da vida terrena. Eis porque todas as instruções humanas, políticas, sociais e religiosas, que se apoiarem nas suas palavras, serão estáveis como a casa construída sobre a pedra. Os homens as conservarão, porque nelas encontrarão a sua felicidade. Mas aquelas que se apoiarem na sua violação, serão como a casa construída sobre a areia: o vento das revoluções e o rio do progresso as levarão de roldão.

Provas voluntárias. O verdadeiro cilício


Do Evangelho Segundo o Espiritismo – Bem-aventurados os aflitos – Justiça das aflições – Causas atuais das aflições – Causas anteriores das aflições – Esquecimento do passado – Motivos de resignação – O suicídio e a loucura – Instruções dos espíritos – Bem e mal sofrer – O mal e o remédio – A felicidade não é deste mundo – Perda de pessoas amada. Mortes prematuras – Se fosse um homem de bem teria morrido – Os tormentos voluntários – A desgraça real – A melancolia – Provas voluntárias. O verdadeiro cilício – Dever-se-á pôr termo às provas do próximo? – Será lícito abreviar a vida de um doente que sofra sem esperança de cura? – Sacrifício da própria vida. – Proveito dos sofrimentos para outrem.

26. Perguntais se é licito ao homem abrandar suas próprias provas. Essa questão eqüivale a esta outra: É lícito, àquele que se afoga, cuidar de salvar-se? Aquele em quem um espinho entrou, retirá-lo? Ao que está doente, chamar o médico? As provas têm por fim exercitar a inteligência, tanto quanto a paciência e a resignação. Pode dar-se que um homem nasça em posição penosa e difícil, precisamente para se ver obrigado a procurar meios de vencer as dificuldades. O mérito consiste em sofrer, sem murmurar, as conseqüências dos males que lhe não seja possível evitar, em perseverar na luta, em se não desesperar, se não é bem-sucedido; nunca, porém, numa negligência que seria mais preguiça do que virtude.

Essa questão dá lugar naturalmente a outra. Pois, se Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos”, haverá mérito em procurar, alguém, aflições que lhe agravem as provas, por meio de sofrimentos voluntários? A isso responderei muito positivamente: sim, há grande mérito quando os sofrimentos e as privações objetivam o bem do próximo, porquanto é a caridade pelo sacrifício; não, quando os sofrimentos e as privações somente objetivam o bem daquele que a si mesmo as inflige, porque aí só há egoísmo por fanatismo.

Grande distinção cumpre aqui se faça: pelo que vos respeita pessoalmente, contentai-vos com as provas que Deus vos manda e não lhes aumenteis o volume, já de si por vezes tão pesado; aceitá-las sem queixumes e com fé, eis tudo o que de vós exige ele. Não enfraqueçais o vosso corpo com privações inúteis e macerações sem objetivo, pois que necessitais de todas as vossas forças para cumprirdes a vossa missão de trabalhar na Terra. Torturar e martirizar voluntariamente o vosso corpo é coutravir a lei de Deus, que vos dá meios de o sustentar e fortalecer. Enfraquece-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio. Usai, mas não abuseis, tal a lei. O abuso das melhores coisas tem a sua punição nas inevitáveis conseqüências que acarreta

Muito diverso é o quê ocorre, quando o homem impõe a si próprio sofrimentos para o alívio do seu próximo. Se suportardes o frio e a fome para aquecer e alimentar alguém que precise ser aquecido e alimentado e se o vosso corpo disso se ressente, fazeis um sacrifício que Deus abençoa. Vós que deixais os vossos aposentos perfumados para irdes à mansarda infecta levar a consolação; vós que sujais as mãos delicadas pensando chagas; vós que vos privais do sono para velar à cabeceira de um doente que apenas é vosso irmão em Deus; vós, enfim, que despendeis a vossa saúde na prática das boas obras, tendes em tudo isso o vosso cilício, verdadeiro e abençoado cilício, visto que os gozos do mundo não vos secaram o coração, que não adormecestes no seio das volúpias enervantes da riqueza, antes vos constituístes anjos consoladores dos pobres deserdados.

Vós, porém, que vos retirais do mundo, para lhe evitar as seduções e viver no insulamento, que utilidade tendes na Terra? Onde a vossa coragem nas provações, uma vez que fugis à luta e desertais do combate? Se quereis um cilício, aplicai-o às vossas almas e não aos vossos corpos; mortificai o vosso Espírito e não a vossa carne; fustigai o vosso orgulho, recebei sem murmurar as humilhações; flagiciai o vosso amor-próprio; enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia, mais pungente do que a dor física. Aí tendes o verdadeiro cilício cujas feridas vos serão contadas, porque atestarão a vossa coragem e a vossa submissão à vontade de Deus. Um anjo guardião. (Paris, 1863.)

O mandamento maior

Do Evangelho segundo o espiritismo – O maior mandamento. Fazermos aos outros o que queiramos que os outros nos façam. Parábola dos credores e dos devedores. – Dai a César o que é de César – Instruções dos espíritos – A lei de amor – O egoísmo – A fé e a caridade – Caridade com os criminosos – Deve-se expor a vida por um malfeitor?

“Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós”, é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, do que devemos fazer aos outros, aquilo que para nós desejamos. Com que direito exigiríamos dos nossos semelhantes melhor proceder, mais indulgência, mais benevolência e devotamento para conosco, do que os temos para com eles? A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas, tão-somente, união, concórdia e benevolência mútua.

1. Os fariseus, tendo sabido que ele tapara a boca dos saduceus, reuniram-se; e um deles, que era doutor da lei, para o tentar, propôs-lhe esta questão: – “Mestre, qual o mandamento maior da lei?” – Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” (S. MATEUS, cap. XXII, vv. 34 a 40.)

2. Fazei aos homens tudo o que queirais que eles vos façam, pois é nisto que consistem a lei e os profetas. (Idem, cap. VII, v. 12.)

Tratai todos os homens como quereríeis que eles vos tratassem. (S. LUCAS, cap. VI, v. 31.)

3. O reino dos céus é comparável a um rei que quis tomar contas aos seus servidores. – Tendo começado a fazê-lo, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. – Mas, como não tinha meios de os pagar, mandou seu senhor que o vendessem a ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que lhe pertencesse, para pagamento da dívida. -O servidor, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: “Senhor, tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo.” – Então, o senhor, tocado de compaixão, deixou-o ir e lhe perdoou a dívida. – Esse servidor, porém, ao sair, encontrando um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, o segurou pela goela e, quase a estrangulá-lo, dizia: “Paga o que me deves.” – O companheiro, lançando-se aos pés, o conjurava, dizendo: “Tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo.” – Mas o outro não quis escutá-lo; foi-se e o mandou prender, par tê-lo preso até pagar o que lhe devia.

Os outros servidores, seus companheiros, vendo o que se passava, foram, extremamente aflitos, e informaram o senhor de tudo o que acontecera. – Então, o senhor, tendo mandado vir à sua presença aquele servidor, lhe disse: “Mau servo, eu te havia perdoado tudo o que me devias, porque mo pediste. – Não estavas desde então no dever de também ter piedade do teu companheiro, como eu tivera de ti?” E o senhor, tomado de cólera, o entregou aos verdugos, para que o tivessem, até que ele pagasse tudo o que devia.

É assim que meu Pai, que está no céu, vos tratará, se não perdoardes, do fundo do coração, as faltas que vossos irmãos houverem cometido contra cada um de vós. (S. MATEUS, cap. XVIII, vv. 23 a 35.)

Bobão

Estive conversando com o dirigente da casa que freqüento atualmente para tirar algumas dúvidas com relação a posições adquiridas. Nossa conversa acabou tomando um rumo distinto, certo momento, e indo parar em um lugar que acho importante compartilhar aqui com vocês.

Falávamos sobre os “aparecidinhos” dentro de um centro. Acredito que, embora nossa doutrina espiritualista pregue a humildade e a servilidade como formas de aprendizado e evolução espiritual, sempre exista aquele (ou aqueles) sujeito que goste de um destaque a mais, de uma atenção a mais, ou que “encontrem a luz” miraculosamente, de uma hora para a outra se tornam sábios, só porque conseguiram adquirir uma posição diferente dentro do terreiro. Essa não é a primeira casa da qual tomo parte dos trabalhos, tão pouco a primeira casa que visito, e sempre vejo essa figurinha, fácil de distinguir pelo jeito de se portar.

Durante a nossa conversa essa figurinha também apareceu. Não personificada, mas em pensamento, diante de uma dúvida. E a conversa nos levou a palavra que dá o título ao texto: Bobão.

Seguindo a linha de pensamento do dirigente, a Umbanda é feita daqueles que dão. Não dos que recebem. Se você tem muito pra dar e dá pouco disso, você não poderá se comparar com aquele que tem pouco para dar, mas dá tudo o que pode. Pode ser que o pouco dele seja muito maior que o muito do outro, mas ainda assim, quem é merecedor nessa causa?

Existem aqueles dentro de um terreiro que gostam de exibir o poder que tem. Que dizem que são milagreiros, que seu Exu é o guardião do inferno todo, que é o que vai mais baixo nas esferas para resgatar os que se arrependeram, que ele sozinho sustenta a corrente mediúnica. Esquece-se, porém, que a corrente se chama corrente porque não é feita de um só elo. Que o Exu vai mais fundo porque conta com auxílio de seus trabalhadores amigos, de sua falange. Que pequenos milagres acontecem graças a interseção de uma série de guias de luz que fazem a energia chegar, através de filtros e mais filtros, puras até nós. E que ele é, como o próprio nome diz, só o meio para que isso aconteça. Só o coador para que o pó e a água se transformem em uma deliciosa xícara de café.

Enquanto esse amigo está lá, se vangloriando, seus amigos encarnados e desencarnados estão observando. E a seleção natural fará com que ele fique para trás, pois quem está satisfeito em contar vantagem não precisa de realizações para contá-las. Instintivamente as pessoas acabam se afastando dela, deixando-a de lado, olhando-a de longe e pensando: que bobão.

Achei engraçado, sobre tudo, que essa expressão saiu da boca do dirigente. Temos nele uma pessoa distante, não por antipatia, mas por necessidade: dentro de um mundo de 300 médiuns, não dá para ser íntimo de cada um. O vemos lá, na frente dos trabalhos, com o semblante sério, o sorriso contido, de repente, por um assunto qualquer, ele me solta essa expressão entre sorrisos: Bobão. A surpresa foi suficiente para, até, calar a risada. Mas de qualquer forma, entendi onde ele queria chegar e espero que vocês entendam onde eu quero chegar. Não sei qual é a aparência que tenho para vocês, se pareço um rapaz duro, de um humor instável e constantemente bravo, ou se um rapaz alegre e vivaz mas, de qualquer forma, o que escrevo é o que se passa em meu coração. Espero que nenhum de vocês que nos visita se enquadre na categoria “bobão”, que busca crescer na Umbanda e quando o faz, menospreza os mais novos ou age deliberadamente para que eles não consigam chegar onde você chegou. Ou ainda mais: não consiga entender ou fique com medo de entender, que outras pessoas possam ter outras idéias que, por ventura, possam ser melhores que as suas. Ou mais corretas. Ou simplesmente idéias novas.

Pensem em seus atos dentro e fora do centro. A vida fica melhor quando todos entendemos que pessoas pensam diferente, e todas as idéias são boas. E todas as pessoas merecem chances, e ninguém é melhor do que ninguém. Que a Umbanda é feita pelos que dão, não pelos que recebem. E feita por aqueles que são humildes, não por “Bobões”.

(http://www.artefolk.com.br/index.php/2011/bobao/)

A Umbanda e Eu

Me lembro de como entortava o nariz para a umbanda antes de conhece-la. Freqüentava a Federação Espírita de São Paulo e por muitas vezes me mandaram começar o curso de mediunidade pois eu ‘precisava trabalhar esse dom’. No final das contas, nunca ia.

Sempre tive fé mas nunca fui de rezar muito. Na minha cabeça, nossas atitudes falam por nós. Conheço tanta gente que reza de manhã, a tarde e a noite, mas não honra uma palavra sequer de suas orações…

Um dia conheci um centro mesa branca perto de casa. Muita gente do bairro freqüentava… Apesar de seguirem o mesmo jeitão da Federação, ao final das palestras e dos passes magnéticos nas salinhas de luz azul, uma das médiuns da casa incorporava uma índia chamada Cheiro de Flor. Eu achava lindo ver aquela entidade dando um brado ao chegar em terra e falar com jeito de índia.. ela passava de pessoa em pessoa, às vezes dizendo algo impactante, às vezes apenas derrubando suas pétalas embelezadas de Tupã.

Ao mesmo tempo, eu nunca aceitei bem a umbanda e o candomblé. A começar que eu colocava tudo no mesmo saco, como muita gente faz. Não entendia e criticava o fato dos guias fumarem. Não entendia guias. Tinha horror aos atabaques. Pois é.

Por duas vezes, movida pela curiosidade fui a tarólogas. Uma delas, me disse coisas que eu não queria ouvir e a taxei de charlatã. A outra queria me cobrar R$ 250 pra acender velas de mel e trazer de volta meu grande amor. Ah, tá.

Um dia, uma amiga me convidou pra conhecer um outro centro dela. Disse que era kardecista. Sem atabaques, mas com alguns médiuns com guias e muitas puxadas de carga. Lá eles disseram muitas coisas que eu queria ouvir…. Ao mesmo tempo, minha mãe, em uma de suas andanças pela Vila, ouviu certo domingo barulho de atabaques. Macumbeira que sempre foi, entrou, gostou e vendo meu sofrimento me arrastou pra lá. Me apaixonei ao ouvir os sons dos atabaques, uma voz maravilhosa de um ogã na curimba e até me esqueci do preconceito que tinha com os cachimbos.

Porém, lá eles não me diziam nada sobre o amor perdido. Mandavam eu cuidar de mim, me fortalecer, crer, etc. Não me diziam nada de extraordinário e eu até achava que eles não diziam nada que eu já não soubesse, mas não concordava. Não era bem o que eu queria ouvir, mas me sentia bem.

Frequentei os dois ao mesmo tempo por algumas semanas, até que o primeiro centro entrou em férias e eu me vi freqüentando apenas a casa que hoje é a minha. Coincidência? Duvido.

Sentava em frente a Vó Augusta e chorava até desidratar a falta daquele que eu achava que era meu único e verdadeiro amor. Um certo Lorinho, atabaqueiro da curimba me dava papel para enxugar as lágrimas. Eu até via a Vó Augusta rindo pro Pai Simão, que sentava perto, mas não entendia. Hoje até entendo. rs….

O tempo foi passando, eu fui melhorando…. Houve uma festa junina beneficente promovida pela casa e lá fui eu, mãe e primos jogar bingo. Ali estreitei os laços com o tal Lorinho, que me comprou do meu primo por dois quentões e uma coxinha (mas isso é outra história)…

Namorar alguém da casa me aproximou mais das pessoas e dos trabalhos, inevitavelmente. Cansei de ‘passar mal’ durante as giras, enquanto espetava minha vez de ser atendida. Sempre quis trabalhar…. achava lindo aquelas pessoas servindo de aparelhos para os guias e fazendo caridade. Achava lindo ver as pessoas saindo mais felizes dos bancados dos pretos-velhos.

Nunca imaginei que os médiuns fossem privilegiados por serem médiuns e sempre achei lindo o ritual e a caridade, e não entendia o porque nunca tinham me chamado pra fazer parte das giras, sabendo que sensibilidade – lógico – eu tinha!

Apesar de parecer metida, sou legal. Eu não entendia como é que os guias não viam toda a minha vontade de ajudar e de fazer o bem pras pessoas….

Quando entendi que mesmo sem querer eu alimentava uma certa vaidade emn relação a mediunidade e ao trabalho (ainda que uma vaidade branca) e passei a trabalhar esse sentimento, quando menos esperava aconteceu.

Fui pra curimba, aproveitar os dotes musicais dados por Deus, para fazer aquela gira ainda mais forte e bonita. Quando me colocaram pra rodar a coisa pegou pro meu lado. Só estando lá no meio é que a gente percebe que não entendia nada de nada, antes. Pelo menos comigo foi assim….

Hoje, alguns meses de trabalho, algumas festas depois, uma quaresma depois, me sinto muito, muito pequena como médium, mas com uma vontade enorme de aprender cada vez mais. Aprender a servir da forma correta os guias. Aprender a ajudar as pessoas pela caridade pura. Aprender o que é ter paciência e aprender o que é crer.

Para se crer, é necessário querer crer, pra começar. O exercício da fé não é fácil. Muitas vezes as aflições da vida, das pequenas as grandes, nos tiram do prumo, nos revoltam… Nossa, como é difícil simplesmente acalmar o coração e deixar as coisas fluírem.

Um terreiro é feito de pessoas e acho normal que hajam discordâncias em alguns momentos. Se a gente fosse tudo santo, eram as nossas imagens que estariam em cima do congá, não as dos orixás. Mas, com todos os problemas que a vida em grupo possa acarretar, o mais importante é ter a certeza de que, quando um precisar, toda uma corrente (encarnada e desencarnada) vai estar lá por nós.

E isso causa inveja. Causa inveja porque a seleção natural da vida expulsa as pessoas que não pertencem realmente ao grupo. E os excluídos desdenham, mas querendo comprar…..

Eu acredito em inveja e em sentimentos negativos. A força do pensamento, para o bem ou para o mal, é uma coisa muito forte. Acredito sim que o ‘Mal’ possa estar por cima da carne seca. Mas só por alguns momentos. Só enquanto a lição não é aprendida por todos. Só enquanto Deus permitir e se Ele permite, é porque tem seus motivos. Isso é fé. Não ‘pollyanismo’, mas fé.

A fé que nos faz ter certeza de que em algumas horas, ao botar o pé pra dentro daquele terreiro, vestidos de branco, alguém maior vai fazer algo por nós e nos aliviar. A fé que nos dá a certeza de que não estamos sozinhos em momento nenhum (dá até medo as vezes, principalmente quando você tem um corredor muito sinistro na sua casa e seus guardiões ficam o tempo todo ali, a postos!).

É a fé que nos faz fincar os pés na areia, mesmo quando o corpo quer ir embora, mesmo quando o corpo está cansado. É a fé que nos faz perdoar em minutos uma resposta mais mal educada de um, ou uma falta de reconhecimento de outro.

É a fé que no faz, no meio da tarde, dirigir um pensamento ao congá pedindo proteção quando algo parece nos ameaçar. É a fé que os faz gastar um dinheirinho que às vezes nem podíamos, pra fazer uma guia, porque assim foi pedido. É a fé que nos faz amar uma pessoa que nem conhecemos direito. É a fé que nos faz nos preocupar com alguém da assistência que vimos mal.

É a fé que nos faz saber quando aquela pessoa na sua frente não é aquele médium que às vezes não temos muita afinidade, mas sim um índio enorme com um arco e uma flecha nas mãos, ou um senhor negro, arqueado, magrinho, fumando cigarro de palha.

É a fé que faz nosso sangue correr nas veias e nosso coração bater forte, quando os poros se abrem, os pelo dos braços arrepiam, a espinha fica gelada e o pescoço quente. Só ela.

E é a fé que me dá a certeza de que com a nossa Lei não há! Porque onde se faz um trabalho sério, com amor e com verdade, a proteção divina age em todos os momentos. E se, em algum momento a fé falha, a bateria acaba, enquanto ela carrega, temos irmãos de fé para nos escorarmos até que a recarga esteja completa.

Avante, filhos de Fé! Com a nossa Lei, não há!

Umbanda. Um mistério envolve de tal forma essa manifestação religiosa que se toma difícil para o leigo saber a sua origem e o seu significado. Seus rituais tomaram-se tão misteriosos que os brasileiros com o seu misticismo natural, foram explorados por aqueles que nenhum escrúpulo tinham em relação à fé alheia. Mas essa não é característica da Umbanda. Por todo lugar onde há o sentimento religioso, manifestam-se pessoas inescrupulosas, que abusam da fé alheia. Protestantes, católicos, espíritas, espiritualistas, esotéricos e também umbandistas não estão livres do comércio e do abuso das almas alucinadas. Mas, no Brasil, essa terra abençoada onde as pessoas preferem julgar antes e, talvez, conhecer depois, a Umbanda, por se manifestar, na maioria das vezes, para aqueles possuidores de uma alma mais simples, de uma fé menos exigente que os tomam vítimas dos pretensos sábios e donos da verdade, recebeu uma marca, um rótulo, que aos poucos, somente aos poucos, vai-se desfazendo. Isso ocorreu também devido às manifestações de sectarismo religioso, antifraterno e anticristão de uma minoria, o que gerou o preconceito contra os rituais da Umbanda, seu vocabulário, suas devoções.

Tambores de Angola (Robson Santos)

Nos terreiros umbandistas encontramos igualmente os recursos necessários para atuarmos junto aos nossos
irmãos. Conheço pessoalmente espíritos de extrema lucidez que militam junto aos nossos irmãos umbandistas,
no serviço desinteressado do bem. Os problemas que às vezes encontramos não se referem à Umbanda propriamente, como religião, mas à desinformação das pessoas, ao misticismo e à falta de preparo de muitos dirigentes, o que, aliás, encontramos igualmente nas casas que seguem a orientação kardecista.
Não se devem confundir as pessoas mal intencionadas, os médiuns interesseiros com a religião em si. Em qualquer lugar onde as questões espirituais são colocadas como uma forma de se promover, tirar proveito ou manipular a vida das pessoas, envolvendo o comércio ilícito com as esferas invisíveis, ocorre desequilíbrio e é atraída a atenção de espíritos infelizes.